APESAR DE TUDO, É PRECISO CRER

APESAR DE TUDO, É PRECISO CRER

Por : Equipe do Informativo Salette

Diante de tudo o que acontece de ruim no mundo, talvez sintamos a tentação de cruzar os braços, de perder o ânimo em face à imensidão de uma tarefa impossível. Para que serve? Pior ainda, o cristão talvez se sinta assaltado pela dúvida. Quando se vê o que acontece no mundo, sente-se a tentação de perder a fé num Deus de amor, senhor da História humana. Segundo uma expressão de Abbé Pierre, trata-se, então, “de sermos crentes apesar de tudo”.

Diante desse horror do mal no mundo, diante da grande fome e das crianças que morrem, Maria, em Salette, nos ensina a tornar-nos crentes, apesar de tudo. Há uma imagem de Maria em Salette, sobre a qual pouco meditamos sem dúvida, a imagem da Virgem carregando sobre seus ombros pesadas correntes que parecem esmagá-la, segundo as palavras de Maximino e Melânia.

Ao contemplar a imagem de Maria acorrentada, talvez se possa compreender, na verdade, quem é Deus. Deus não é um todo poderoso dominador do mundo. Se assim fosse, teríamos o direito de condená -Lo: como poderia, com efeito, acontecer que Ele permita tanta maldade em nosso mundo? Pedir contas a Deus é o que fazemos muitas vezes. Quantas vezes O acusamos pelo mal no mundo? Maria, em Salette, afirma: “Praguejáveis, usando o nome de meu Filho”. Ela, ao contrário, quer nos mostrar que todo esse mal só existe “por nossa causa”. Ela não diz isso para nos culpabilizar, mas quer sublinhar nossa liberdade e responsabilidade. A fonte do mal no mundo não é de Deus, mas o homem em sua liberdade recebida de Deus.

Deus não pode ferir essa liberdade que deu ao homem. A imagem de um Deus onipotente dominador é uma caricatura de Deus. Na verdade, Deus é todo poderoso, mas o todo poderoso cativo. De tal modo respeita a liberdade do homem, que se fez prisioneiro
dessa mesma liberdade. Deus é o onipotente que se fez cativo por amor. E as pesadas correntes sobre os ombros de Maria, em Salette, no-lo afirmam de modo surpreendente. Não se trata de palavras, de discursos vazios, mas do compromisso da primeira
dentre os crentes: Maria, acorrentada, é a própria imagem do Ser de Deus, o todo poderoso cativo.

Não são apenas suas correntes que o dizem, mas igualmente o Crucifixo que trazia sobre seu coração: “Quando olho para o Cristo sobre a Cruz - dizia Abbé Pierre - vejo ali toda a dor da humanidade, e, além disso, em suas mãos pregadas, vejo o onipotente cativo, voluntariamente cativo da liberdade que nos deu”.

É assim que Maria, em Salette, nos ensina a sermos crentes, apesar de tudo. Por suas correntes, por seu crucifixo, mostranos
muito bem que é Deus: seu Filho, solidário com todo o sofrimento do mundo, combatendo-o ao carregá-lo sobre si, mas também seu Filho, Deus cativo de nossa liberdade. Ela nos mostra até onde Deus nos amou. Mostra-nos o único Reconciliador, “Aquele que assumiu sobre si as nossas fraquezas e carregou nossas enfermidades”. (Is 54, 4)

Na verdade, temos certeza de que esse Deus, acorrentado por amor, concederá a última palavra ao amor. Apesar do espetáculo de lutas finais que jamais terminam, sabemos que o amor crucificado terá a última palavra. A reconciliação já foi adquirida para os homens, ela é um dom gratuito a se receber e acolher.

 

(Textos de autoria do Padre Marcel Schlewer, ms, em “Les Annales de Notre Dame de La Salette, março/abril de 1983)

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