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Informativo Outubro 2006

COMENTÁRIOS À CARTA ENCÍCLICA "DEUS CARITAS EST" - I

INTRODUÇÃO - O Papa Bento XVI inicia sua primeira Carta Encíclica com o versículo 16 do capítulo 4, da 1ª Carta de são Joãoàs comunidades cristãs da Ásia Menor, escrita provavelmente no fim do século I: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”. A seguir faz algumas considerações a respeito do amor de Deus pelos homens, citando passagens do Deuteronômio (6, 4-5); do Levítico (19, 18); da 1 Jo (4, 10) e Mc (12, 29-31) e conclui que tendo sido Deus o primeiro a nos amar, o amor já não é apenas um “mandamento”, mas resposta do homem ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro. Ainda na introdução, o Papa diz que seu objetivo com a primeira encíclica é falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós. Para isso, ele divide a encíclica em duas grandes partes: na 1ª parte, que ele considera mais especulativa, deseja especificar dados essenciais sobre o amor que Deus nos oferece de forma misteriosa e gratuita; na 2ª parte, de caráter mais concreto, trata da prática eclesial do mandamento do amor ao próximo. O desejo de Bento XVI é suscitar um empenhamento da resposta humana ao amor divino.

I PARTE: A UNIDADE DO AMOR NA CRIAÇÃO E NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO.

Um problema de linguagem - O primeiro obstáculo colocado por Bento XVI é o significado do termo “amor”, palavra usada e abusada com os mais diferentes significados (amor à pátria, à profissão, ao trabalho, entre pais e filhos, entre irmãos e familiares, etc.). Porém, entre todos esses significados, o amor entre o homem e a mulher sobressai como arquétipo (padrão, modelo) por excelência.

Eros e ágape Diferença e unidade - A seguir, sua santidade tece considerações a respeito do amor entre o homem e a mulher, que na Grécia antiga, recebeu o nome de Eros, aliás, palavra usada apenas duas vezes no Antigo Testamento grego e nenhuma vez no Novo Testamento, em que o privilégio ficou para o termoágape. O Papa cita Nietzsche, filósofo alemão, que dizia que o cristianismo teria dado veneno ao Eros, exprimindo uma sensação de que a Igreja, com seus mandamentos e proibições, tornara amarga a coisa mais bela da vida. O Papa indaga: o cristianismo destruiu verdadeiramente o Eros? Ele mesmo responde: no mundo pré-cristão, os gregos viam no Eros uma “loucura divina”, que arranca o ser humano das limitações de sua existência, tornando todas as outras forças, no céu e na terra, secundárias. Nas religiões essa posição traduziu-se nos cultos à fertilidade e à prostituição “sagrada”. A essa forma de religião, o Antigo Testamento combateu-a como perversão da religiosidade, sem, contudo rejeitar o Eros, mas opondo-se ao Eros inebriante, descontrolado, que causa a queda e degradação do ser humano. Se o ser humano aspira somente ao espírito e rejeita a carne ou se ele renega o espírito e considera apenas a matéria, perde a sua dignidade e sua grandeza. Somente quando ambos (espírito/alma e matéria/carne) se fundem em verdadeira unidade é que o Eros, o amor amadurece na sua verdadeira grandeza. A exaltação do corpo degrada o Eros a puro “sexo”, coisa que se pode comprar ou vender; o ser humano torna-se mercadoria. A fé cristã considera o ser humano, um ser único, em espírito e matéria, que se completam e experimenta uma nova nobreza, um novo amor. O Eros, o amor quer nos elevar em êxtase para o Divino, mas para isso, requer como já foi dito um caminho de ascese (exercício espiritual), renuncias purificações esaneamentos. Como deve ser vivido o amor para que se realize, plenamente, a sua promessa humana e divina? Uma primeira indicação de Bento XVI é o livro Cântico dos Cânticos. As poesias ali contidas, cânticos de amor, exaltam o amor conjugal. Nesse contexto, duas palavras designam o amor”: primeiramente o termo Dodim, que exprime o amor ainda inseguro, uma procura indeterminada. Depois o termo Ahabá, traduzido pelo som semelhante como Ágape, que designa a experiência do amor, a descoberta do outro, cuidado do outro pelo outro, a procura do bem amado. O Ágape, termo característico do amor, na concepção bíblica faz parte da evolução do amor, que ele procura agora, o caráter definitivo, no sentido da exclusividade: “apenas esta pessoa” e “para sempre”, compreende a totalidade da existência em toda a sua dimensão; ele visa à eternidade. O amor e êxtase, como caminho, como êxodo para o reencontro de si mesmo e para a descoberta de Deus. Se a mensagem de amor que nos é anunciada pela Bíblia e pela tradição da Igreja teria algo a ver com a experiência comum do amor ou se ao contrário, se opusesse a ela, o Papa volta às duas palavras fundamentais: Eros (amor mundano, material, transitório) e Ágape (amor fundado sobre a fé). Essas duas expressões aparecem também como amor “ascendente”, “possessivo” e amor“descendente”, “oblativo” (piedoso). Na realidade, diz Bento XVI, Eros e Ágape, como amor ascendente e amor descendente, nunca se deixaram separar completamente um do outro. Quanto mais eles se encontrarem, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. O ser humano pode tornar-se uma fonte onde correm rios de água viva (Jo 7, 37-38), mas para isso, deve primeiro beber da fonte original que é Jesus Cristo.

(continua na próxima edição)

Nelson e Cidinha Velloso
Casal Piloto

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