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Informativo Abril 2006

A PORTA DE ENTRADA

Certa vez fui a uma casa no interior do estado que ficava ao lado de um açude, bem no meio da plantação de batatas. Não havia luz elétrica e dormia-se à luz de um candeeiro de óleo, que enchia nossos pulmões de uma fumaça preta e de cheiro horrível, que mal iluminava o interior da casa.

Notei que a mesma era toscamente caiada do lado de fora e por dentro não havia piso, era terra batida, mas, a porta era muito bem feita e acabada, toda envernizada e digna de muitas mansões do requintado bairro das moscas verdes (Morumbi, em tupiguarani). Perguntei ao fazendeiro porque aquele casalejo mal arrumado tinha uma porta tão requintada e rica. Disse-me que colocara aquela porta para lembrar a criançada que vinha, nos fins de semana, brincar no açude, da importância de um ato que seus pais tomaram quando ele ainda era uma criança pequena. Sempre que dizia isso, a curiosidade infantil falava mais alto e sempre perguntavam o que era e lhe dava a oportunidade de falar-lhes sobre seus batismos. Dizia-lhes, então, que a casa representava a vida espiritual de muita gente, mal e mal caída por fora, com vislumbres de caridade e amor, tanto a Jesus quanto ao próximo, mas por dentro, sem sequer um piso adequado, terra batida e rebatida pelo dia a dia. Explicava para as crianças que, ainda que a vida daquela gente, não fosse um exemplo de atitude cristã e católica, seus batismos continuavam a ser fulgurantes e maravilhosos diante de Deus, porque foi ali que entraram no rol de Filhos de Deus. Acrescentava ainda, que deviam agradecer aos pais por terem levado a cada um para ser batizado dentro da Igreja Católica porque assim recebiam, desde aquele momento, agraça divina de serem irmãos de Jesus.

E a nossa vida, como anda?

Male e male caiada por fora e sem um piso firme e resistente por dentro, como me contava aquele fazendeiro amigo? Estamos dando o melhor de nós para divulgar o Reino de Deus? Estamos servindo nossos irmãos e imitando o exemplo deixado por Jesus? Ou tornamo-nos industriais, verdadeiros capitães de indústria no ramo das “desculpas esfarrapadas”, do tipo: “não tenho tempo de trabalhar para a Igreja e para os irmãos?“ Temos levado a sério o ato penitencial de cada domingo ou tem sido esse ato um lenitivo para nossa consciência, não acrescentando nada ao nosso progresso espiritual? Será que temos nos contentado em agradar ao padre e alguns amigos que nos vêem na Igreja no final de cada missa do domingo ou temos refletido nas palavras divinas ouvidas nas leituras? Temos seguido ou tentado seguir o exemplo de Cristo desde que saímos da missa até a hora que retornamos no próximo domingo? Será que não temos pregado a fraternidade e tão logo nos perdem de vista os amigos e nos tornamos tão ou mais bárbaros que os ateus que em nada acreditam?

Não nos esqueçamos que a porta de entrada, o nosso Batismo, continua lá, na entrada de nossos corações; limpa, linda, nova e fulgurante; aguardando que uma nova pessoa reentre numa vida mais digna, mais fraterna e mais cristão, todos os dias, quer chova ou faça sol.

Miguel Vasconcelos - Pastoral do Batismo
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