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Informativo Outubro 2005

UM CONTO DE NATAL

Há muitos anos eu trabalhava numa empresa que desenvolvia um importante trabalho com crianças de rua, na faixa etária de 10/15 anos. Proporcionava-lhes estudo (da primeira a oitava série), alimentação, orientação pedagógica, condução e o primeiro emprego. Ao finalizarem os estudos da 8ª. série, essas crianças eram contratadas como contínuos ou recepcionistas.
Na proximidade do Natal, final de ano, a empresa escalava alguns gerentes para estarem conversando com essas crianças sobre sua atuação institucional e expectativa deles em relação ao futuro.
Numa nessas ocasiões eu fui escalado. Lembro-me que era um
grupo de cerca de sessenta e poucas crianças, todos oriundos de famílias desestruturadas, carentes. Muitos traziam ainda sinais de desnutrição e mal-tratos sofridos durante a vida. Tinham olhos pedintes, olhos de medo, de incompreensão, mas sobretudo, tinham olhos esperançosos. Lembro-me de ter-lhes falado sobre isso, sobre esperança, esperança deles, esperança da empresa, esperança minha própria. Coisa de dez ou quinze minutos. Ao final, como é de praxe, o palestrante aguarda as perguntas. Lá no fundo da sala, um negrinho (e aqui não há nenhum demérito) muito esperto perguntou serelepe: “Oôô tio! Existe Papai Noel?”
Não se deve mentir, principalmente para as crianças. Essa
pergunta não podia ficar sem resposta. Dize-lhes que a existência do Papai Noel depende da forma como o vemos, da idéia que dele.fazemos. Se o imaginamos um velhinho bonachão, de cabelos e barbas brancas e vestido de vermelho, distribuindo presentes a todas as pessoas, esse Papai Noel não existe. E na hora me veio à mente uma pessoa que conheci. E eu contei-lhes esta história.
Trata-se da Irmã Odete, lá de Marcelino Ramos (RS), orientadora da Casa do Menor, que abriga crianças abandonadas pelas famílias ou desassistidas pelo governo. Essa instituição vive de esforços da comunidade que através de doações e de trabalho voluntário dignifica a vida humana. Irmã Odete trabalhava em Roma, onde lecionada da universidade católica de lá. Foi professora universitária também aqui na USP Universidade de São Paulo. Vivia no primeiro mundo, cercada de coisas bonitas, de serventias valiosas. Mas um dia, trocou tudo isso para viver na sua Marcelino Ramos, num país de terceiro mundo, sem mordomias, sem o conforto romano, para cuidar, literalmente, dos filhos dos outros. E fazia isso com o maior carinho, com muito amor. Seus olhos brilhavam de prazer ao falar de suas crianças. Eu diria, sem nenhum medo de errar, que Irmã Odete é uma versão cabocla de Madre Teresa de Calcutá.
Numa das idas a Marcelino Ramos, no retorno a S.Paulo, Irmã
Odete nos acompanhou do ônibus da volta. Vinha a S.Paulo para submeter-se a uma pequena cirurgia nos olhos. Viemos
conversando pelo caminho, são quase quinze horas de viagem.
Poucos dias depois, Irmã Odete totalmente restabelecida retornou a sua terra. Hoje, de certa forma reclusa, cuida da mãe muito adoentada e da pequena Sonia, que adotou como filha.
- “Oôô tio! Existe Papai Noel?”
- “Moleque, eu havia viajado com ele.”

Mario Apone
Catequese Familiar

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