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MISSIONÁRIOS DE NOSSA SENHORA DA SALETTE PROVÍNCIA IMACULADA CONCEIÇÃO BRASIL
DIRETÓRIO PROVINCIAL DOS SANTUÁRIOS SALETINOS
Santuário: lugar de encontro e reconciliação
CONSELHO PROVINCIAL
PREÂMBULO: NOSSAS ORIGENS E NOSSO CARISMA.
Capítulo 1: A MISSÃO RECONCILIADORA
1.1 - MARCO BÍBLICO
1.2 - MARCO ECLESIAL
1.3 - MARCO PASTORAL
Capítulo 2: O PROFETISMO RECONCILIADOR
2.1 – NOSSO HORIZONTE
2.2 – NOSSO SERVIÇO
2.3 – NOSSAS MEDIAÇÕES
2.4 – NOSSA SIMBOLOGIA
Capítulo 3: O CUIDADO RECONCILIADOR
3.1 – Nosso Ambiente
3.2 – Nossa administração
3.3 – Nossa Organização
Dom Felisberto de Bruilhard (Bispo de Grenoble-França) não é tido como nosso fundador, mas o desafio que ele deixou aos padres, através de sua carta de 01 de maio de 1852, certamente influenciou e continua influenciando o ministério dos Missionários Saletinos até os dias de hoje. Se ele não é o fundador de fato, é o orientador por excelência.
No dizer do Bispo, os Missionários, bem como o Santuário, deveriam ser memoriais do fato acontecido em La Salette e, por conseqüência e missão, da mensagem lá deixada. Mensagem esta, interpretada por ocasião do Sesquicentenário da Aparição, pelo Papa João Paulo II, como sendo uma Mensagem de Esperança.
O ministério da reconciliação contempla e exige que sigamos o caminho da esperança. Como não acreditar que o Pai nos acolhe e faz festa quando do nosso retorno? (Parábola do Pai Misericordioso – Lc 15,11-32); Como não acreditar que há mais alegria no céu quando a ovelha perdida é encontrada? (Parábola da Ovelha Perdida – Lc 15,3-7); Como não assumir este ministério se “Deus colocou em nós a palavra da reconciliação”? (2Cor 5,14-20).
O Santuário é o lugar da evangelização viva, encarnada, no chão da história e a partir dos fatos da vida do povo. O Santuário é local da experiência de Deus, do encontro com o lado materno do Senhor, do fazer-se próximo a Maria, para dizer-lhe, Mãe “eis-nos aqui, suplicantes”.
O “Diretório Provincial dos Santuários Saletinos – Santuário: lugar de encontro e reconciliação”, é fruto do esforço dos Missionários Saletinos - religiosos e leigos - no sentido de buscar uma unidade, a partir das orientações da Igreja e da Congregação, tornando este trabalho uma obra pastoral voltada à evangelização e à promoção da plenitude da vida.
Nós, do Conselho Provincial, agradecemos aos representantes dos Santuários de Marcelino Ramos, Curitiba, São Paulo, Rio de janeiro e Caldas Novas pelo trabalho coletivo de redação deste Diretório. Nosso desejo é que Comunidade Religiosa e Comunidade Leiga se integrem ainda mais para fazer que estas idéias se concretizem no Regimento Local de cada santuário saletino, “tudo para a glória de Deus e o amor de nossos irmãos.”
Caminhemos nesta direção.
Pe. ADILSON, Pe. EDEGARD, Pe. ILDEFONSO e Pe. BOLIVAR
PREÂMBULO: NOSSAS ORIGENS E NOSSO CARISMA.
Nosso ser-missionário-saletino se edifica sobre os seguintes alicerces:
1)- A aparição de Maria a Maximino e Melânia, na Montanha da Salette, França, a 19 de setembro de 1846. Dois aspectos marcaram profundamente os dois pastores: a beleza daquela que eles chamaram de “a Bela Senhora”, não obstante suas lágrimas, e o crucifixo do qual emanava uma luz na qual eles se sentiram profundamente envolvidos. Estes dois aspectos contrastavam profundamente com a rude vida dos habitantes das montanhas e com a pobreza material e espiritual dos dois videntes. A aparição em si mesma é um contraste entre a beleza que encanta e o sofrimento que desestimula.
2)- A mensagem que Maria transmitiu aos dois pastores tem como centro o Cristo crucificado o qual, de braços estendidos, quer abraçar todos os que se deixam atrair por seu amor sem fronteiras. Aqueles que se deixam contagiar por esse amor serão capazes de marchar na alegria todos os dias de sua vida. Em sua mensagem, através do episódio acontecido na terra de Coin, Maria recorda, igualmente, a presença amiga de Deus no mais banal e vital de nossa existência. Ela ajuda Maximino e Melânia discernir a causa de alguns dos males daquele tempo como as colheitas perdidas, as crianças que morriam de fome, o abandono da oração e da prática dominical, a invocação abusiva do nome Deus, a quem atribuem a origem de todos os males... Ela recorda que tais males tem origem nas pessoas e, apesar disso, Deus os brinda com seu amor e os convida a retornar a Ele. Ela propõe que cada pessoa assuma a responsabilidade de retornar a Deus percorrendo um caminho de conversão. “Se se converterem...”.
3)- D. Philibert de Bruillard, Bispo de Grenoble, Diocese onde a Vila da Salette fazia parte, em 1851, depois de uma rigorosa pesquisa e constatando a freqüência ao local da Aparição, a devoção “à Reconciliadora dos Pecadores”, os milagres ali ocorridos, declara que o “acontecimento de 19 de setembro de 1846, na Montanha dos Alpes, na Paróquia da Salette, contém todas as características da verdade e que os fiéis podem considerá-la certa e indubitável.” A partir desta constatação o Bispo decretou a criação do Santuário e de um grupo de missionários de Nossa Senhora da Salette. Santuário e missionários deveriam perpetuar a memória da aparição. O local, que inicialmente era marcado por uma simples Via Sacra, foi crescendo. Construiu-se então um templo que, em 1879, foi declarado Basílica. Os poucos missionários que no início viviam em cabanas, se transformaram em uma congregação que conta hoje com cerca de mil religiosos presentes nos cinco continentes. No Brasil, a presença saletina se dá inicialmente no estado de São Paulo, no ano de 1902 e, no decorrer da história, foi ampliando-se para os estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia. Mato Grosso, Goiás, Santa Catarina, Minas Gerais e Rondônia. O carisma é a Reconciliação. A vocação é convidar a pessoa a se reconciliar consigo mesma, com os outros, com Deus e com toda a criação. O compromisso é incentivar as pessoas e os movimentos a sonhar com um mundo novo e reconciliado e a lutar para que os valores do Evangelho sejam o cimento que assegura a unidade dos construtores do “novo céu e da nova terra”.
Com estes fundamentos e com esta origem é que vemos no Santuário a possibilidade de oferecer à Igreja a missão mais específica e para a qual surgimos: o Santuário, para nós, é um espaço aberto ao povo de Deus e um lugar de reconciliação, onde cada peregrino, no atendimento que se lhe oferece, nos momentos de oração e de caminhada que ele mesmo se propõe e no encontro fraterno e solidário com os outros que também peregrinam, pode encontrar vida, esperança e libertação.
O Santuário Saletino é, desde sua origem e na sua concepção pastoral, “memória, presença e profecia do Deus vivo”.
Capítulo 1: A MISSÃO RECONCILIADORA
“Javé disse: «Eu vi muito bem a miséria do meu povo que
está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores,
e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios e para fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel.” (Ex 3,7s)
O Missionário assim o é, à medida que assume uma missão e faz da mesma um verdadeiro compromisso de vida e de consagração. É Deus quem chama por primeiro e convoca para um envio.
A história da missão saletina fez com que tivéssemos, no horizonte de nossa especificidade, a Reconciliação como carisma. Esta realidade, entendida muito mais como um princípio, uma atitude, uma espiritualidade, uma mística, do que como uma única atividade, nos faz diretamente envolvidos com as causas da miséria e dos sofrimentos do povo.
Na base de nosso carisma está a raiz que o alimenta, isto é, está a Aliança que Javé propõe e renova com seu povo. A Igreja, instrumento de Deus, recorda-nos constantemente esta verdade e convida-nos a seguirmos pelo caminho da justiça e da verdade como um caminho que nos levará ao encontro definitivo com o Pai.
Nesta presença missionária no mundo, como Congregação Religiosa, damos especial atenção aos males contemporâneos, numa atitude reconciliadora, combatendo-os com palavras, ações e testemunho.
Há, como princípio norteador, um marco bíblico, um marco eclesial e um marco pastoral, que fundamenta nossa missão reconciliadora.
O “santuário”, na pré-história, é a expressão material do impulso interior que leva o ser humano a descobrir o universo misterioso do além, a relacionar-se com ele, a conhecê-lo para subjugá-lo. É o “humano” que procura o “divino”. O “santuário” tinha limites determinados dentro dos quais o “divino” era enquadrado e somente manipulado pelo “xamã”. O mistério do “santuário” estava centrado na morte e na sobrevivência do espírito dos mortos. A “teologia” do “santuário” pré-histórico tinha sua “liturgia” no culto aos ancestrais. Essa característica prevalece também nas grandes civilizações pré-cristãs.
No contexto bíblico se encontra um novo e mais pleno sentido para essa ânsia humana. Segundo o Antigo Testamento, o próprio Deus vem ao encontro da humanidade para lhe revelar seu desígnio, satisfazer o desejo humano de estabelecer relação com a Divindade e indicar-lhe a perspectiva de uma vida em plenitude, para além da morte. O “santuário”, nesse contexto, assume a dimensão de marco no peregrinar humano por esse mundo, marco onde a relação com Deus é privilegiada. O “santuário” aqui possui uma dimensão “religiosa”, i.e., de “re-ligação” com um Transcendente divino, pessoal e vivo, que se relaciona com o ser humano.
A experiência de Abraão (Gn 12,1-5) é a manifestação bíblica mais expressiva da caminhada do ser humano convocado a sair de si mesmo, do próprio, pequeno, conhecido e amado mundo, e partir em direção a uma realidade desconhecida, mas indicada por Deus. O impulso da fé suscita em Abraão a esperança na Promessa divina, esperança vivida num peregrinar desafiador e assinalado por locais específicos de encontro com Deus, os “santuários abraâmicos”.
UR, na Caldéia, era para Abraão, o mundo da pequenez, da tribulação e do limite final, a morte. Mundo da retenção da pessoa em si mesma, do apego ao próprio eu, ao universo das ilusórias certezas. Deus induz Abraão a romper esses laços. Provoca-o a partir sem a clareza do destino. Seu peregrinar pelo deserto delineia o espaço e o tempo da busca e da aprendizagem do novo que Deus lhe apresenta ao longo do caminho. A retenção mortal ao próprio universo vai se transformando em desapego, em tensão constante, sofrida, voltada ao desconhecido. É um peregrinar na obscuridade, num deserto de ilimitados rumos, mas na certeza da Promessa. Canaã é o símbolo do mundo novo, a Terra da Promessa.
À medida que caminha, Abraão descobre. Descobrindo, instala marcos significativos de sua peregrinação, sinais da intercomunicação com Deus, expressão de fé e esperança na progressiva abertura ao desígnio divino. Constrói santuários rústicos, mas de sentido intenso: Siquém (Gn 12,6-9; 33,18-20), Betel (Gn 13,1-4; 28,10-20; 35,1-15), Mambré (Gn 13,18;18,1-15). São pontos que re-estruturam a vida e a fé de Abraão.
Uma vez estabelecidos em Canaã (Gn 16,3), Abraão e seu clã foram assumidos por Deus na forma de Aliança. A confiança de Abraão em Deus nela encontrou sua plenitude. A Aliança é iniciativa de Deus (Gn 17, 2). Um pacto de vida pelo qual Deus assume Abraão e sua descendência sob seus cuidados e implica na fidelidade deles à Palavra de Deus. A Aliança é expressa no rito da circuncisão com sangue derramado (Gn 17, 9-13). Mais tarde é reafirmada com Isaac e Jacó.
Junto ao Carvalho de Mambré (Gn 18,1-8) Deus lhes aparece na figura de três misteriosos personagens que por ali passavam. Abraão e Sara lhes oferecem a ceia que sela a plena comunhão com o Senhor Deus. Celebra-se a alegria do “encontro”. A hospedagem oferecida aos Três permite o prenúncio do dom da vida de um filho a Sara. Esse clima religioso, de mútua doação, permite a Abraão acompanhá-los e, num diálogo orante primoroso, interceder pelos habitantes de Sodoma e Gomorra (Gn 18,17-33) para se converterem e viverem a reconciliação. O encontro na “tenda-santuário” de Mambré abriu o caminho da reconciliação para além da sombra frondosa do carvalho.
Segundo o Livro do Êxodo, Moisés é convocado por Deus para libertar o povo hebreu da escravidão no Egito (Ex 2,23-3,1-20). Deus ouviu seus gemidos. Lembrado de sua Aliança com os antepassados, Deus viu os israelitas e se deu a conhecer a eles (Ex 2, 23-25). Confiou a Moisés o processo de libertação de seu povo (Ex 3, 7-12). O rito da Páscoa da Libertação confirma a Aliança com Deus. O povo partiu. Nesse contexto, a Aliança abraâmica, individualizada e restrita a um clã, abriu-se para sua socialização pela formação do povo como Povo de Deus. Nisso o rito encontra seu substrato teológico-religioso: “Tomar-vos-ei por meu povo, e serei o vosso Deus” (Ex 6,7).
Moisés e seu povo seguem o caminho do deserto. Nesse peregrinar, o povo hebreu foi aprendendo a viver na liberdade, na organização social e na aceitação do desígnio do Senhor Libertador, Caminheiro junto com seu povo (Nm 9,15-23). Difícil formação, quando a tentação do retorno à vida, embora sofrida, na opressão egípcia, se sobrepunha, às vezes, ao anseio pela terra do leite e mel a ser conquistada segundo a Promessa. A infidelidade do povo carecia de permanente conversão à Aliança com Deus sempre fiel.
O braço forte de Deus, porém, conduz seu povo ao Monte Sinai (Ex 19-20). Nessa montanha sagrada, Deus celebra com ele, a solene Aliança, fixada no Decálogo, itinerário para a prática da relação com Deus e do relacionamento humano entre todos os membros do povo. A Aliança foi solenemente assumida pelas doze tribos de Israel (Ex 24,1-8; cf. Js 24,14-28). Um “santuário” foi construído para marcar o evento (Ex 35). Na “Tenda da Reunião”, a Arca da Aliança (Nm 10; 33; 36) era o ponto de encontro e fonte do compromisso de todos os membros do povo entre si e com seu Deus.
O Bezerro de Ouro, materialização da saudade malsã de um passado de morte, rompeu a Aliança da Vida nos caminhos do deserto. Era fruto da dureza do coração do povo. Moisés intercede junto a Deus para que reconcilie o povo consigo (Ex 32,11-14). A Aliança é renovada (Ex 34,1-28). A reconciliação supõe um engajamento perene. Não é feita de uma vez por todas. Constantemente precisa ser restabelecida ao longo do peregrinar na vida até que se alcance a plenitude da Promessa na eternidade.
Davi instala a Arca da Aliança em Jerusalém (2 Sm 6). Sua itinerância finda. Inicia sua fixação e rigidez.
Salomão, a seguir, construiu o grandioso Templo na Capital (1Rs 5-6). Nele se conservava com respeito e suntuosidade, a Arca da Aliança. Para ele o Povo de Deus se dirigia em peregrinação três vezes ao ano: na festa da Páscoa ou dos Ázimos, na do Pentecostes ou das Semanas e na das Tendas. A peregrinação era intensamente esperada (Sl 84,6-8) e o povo caminhava em festa, entre clamores de alegria e ações de graças (Sl 42,5) até a “Casa de Deus” para se deter em sua presença (Sl 84,6-8), (Cf. “Diretório a respeito da piedade popular e a liturgia: princípios e orientações”, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cidade do Vaticano, 2001, n. 280). Celebrava-se e se reavivava a Aliança. O rito se tornava expressão da vida do povo em caminhada ao encontro com Deus.
Para o AT o Santuário era, portanto, o ponto de aglutinação social entre os cidadãos e, ao mesmo tempo, de sua união religiosa com seu Deus Salvador. Ponto de encontro e reconciliação.
A peregrinação ao Santuário tinha a dimensão de memória das maravilhas realizadas por Deus no passado, a dimensão de presença viva e permanente do Deus sempre Fiel a seu povo aliado e a dimensão de profecia da vida futura e plena à qual o povo era chamado, (Cf. “O Santuário: memória, presença e profecia do Deus Vivo”, Pontifício Conselho Para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, Cidade do Vaticano, 1999, n. 3).
O Templo, os sacrifícios nele oferecidos, a peregrinação até ele feita foram, no entanto, se esvaziando de sentido por causa da infidelidade à Aliança estabelecida. Os Profetas denunciavam os desvios. Pregavam a conversão do povo, conclamavam à reconciliação nos limites da Aliança.
Isaías anunciava o nascimento do Emanuel (Is 7,10-16), filho de uma virgem de Sião, sinal de salvação. Profetizava a vinda do verdadeiro Servidor de Javé (Is 42; 49; 50), filho do “Resto Fiel” do povo no cativeiro da Babilônia. Servo que educaria toda a nação nos caminhos do Senhor e estenderia a Aliança a todos os povos da terra.
Para Jeremias, a Aliança devia ser refeita no caminho da conversão e inscrita não mais em tábuas de pedra e sim em corações de carne (Jr 31,31).
Para Ezequiel, Deus derramaria seu Espírito sobre o povo para que ele se tornasse verdadeiramente o Povo que a Deus pertence (Ez 11,14-20).
A infidelidade constante aos compromissos da Aliança fez caducar, porém, a letra do pacto com Deus. O antigo se tornava superado. O “reino” indicado por Deus e buscado pelo povo terminou por se restringir a um objeto de cobiça, de luta pelo poder, de possessão de um território apenas.
No entanto, a fidelidade misericordiosa e sem limites de Deus abria um futuro novo já a caminho, implícito na Aliança celebrada com os antepassados. A perspectiva do futuro estava direcionada ao Messias anunciado. Ele seria o Emanuel, “o Deus conosco”, enviado pelo Pai para ser o Caminho, a Verdade, a Luz e a Vida (Jo 14,6) para um novo Povo de Deus. Em sua Humanidade habitaria a Divindade, como em novo Santuário para uma Nova e Eterna Aliança. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30; 17,21).
O antigo Santuário de Jerusalém, tantas vezes freqüentado por Jesus, concluía sua missão. A “Casa de Deus” se tornara covil de ladrões (Mc 11,15-17). O novo e santo na sua inteireza aparecia na pessoa do próprio Cristo, Templo supremo e definitivo (Jo 2,18-21; Ap 21,22), Santuário Vivo da presença do Pai no Espírito.
A própria peregrinação assumia um sentido novo. Peregrinação de Jesus não mais geográfica apenas, a da ida periódica ao Templo de Jerusalém, mas a do Jesus itinerante pelas estradas da Judéia e Galiléia por entre os pobres e sofridos, como Bom Pastor que busca a ovelha perdida (Jo 10,1-18). Peregrinação de todo um povo seguidor de Jesus Cristo, vida afora. Para o Evangelho, a peregrinação é seguimento a Cristo. Ele é o “Destino” de todo peregrinar tipicamente bíblico. A peregrinação a um determinado Santuário, sempre possível, toma sua razão enquanto busca de Jesus Cristo e seguimento de sua Vida e Palavra.
Com a morte de Cristo na Cruz, o véu do Santo dos Santos rasgou-se ao meio (Lc 23,45). Extinguira-se o significado do Templo de Jerusalém. O mistério do Templo encontrava sua plena realização em Cristo Jesus. Templo não mais fixado num local, a uma cultura, a um povo, mas aberto ao horizonte universal da Aliança de Deus com toda a humanidade. Um novo Povo de Deus tomava em Cristo sua constituição. O “Reino” por Ele anunciado é o “Reino do Pai”. Não é reino mundano (Jo 18,33-37). Sua missão é a de “congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,52). Missão de Reconciliação da humanidade com Deus, das pessoas entre si, consigo mesmas e com a morada que Deus lhes deu, o universo. Missão de salvação do pecado e da morte como maldição eterna. Missão de libertação da opressão de uns sobre os outros, da injustiça que desumaniza, da violência que esmaga, do desrespeito à dignidade de cada filho ou filha de Deus. Missão de anunciar e iniciar a construção do Reino de Deus na história para viver em sua plenitude na eternidade. Missão cumprida na Cruz e Ressurreição: “Quando eu for elevado da terra atrairei todos a mim” (Jo 12,32), que abre a esperança para o santuário definitivo (Apoc 21).
O Cristo fez de sua Vida o Maná (Jo 6,48-58) que alimenta o povo em sua peregrinação terrestre. Proclama o Reino do Pai Nosso que nos dá o pão nosso, para que todos sejam irmãos (Lc 11,1-4; Mt 6,9-13). Convoca o povo para que se converta e viva. Manso e humilde de coração, derrama sua misericórdia sobre os pecadores arrependidos. Cura. Ressuscita. Multiplica o pão à saciedade para todos. Faz de si mesmo o Pão da Vida Eterna (Jo 6,35). Na última Ceia entrega seu corpo no pão consagrado e seu sangue derramado para a Nova Aliança (Mt 26,26-29; 1Cor 11,23-26). Entrega a própria Vida crucificada para libertar os crucificados dessa vida. Ressuscita para se fazer presente lá onde dois ou mais se reúnem em seu Nome. Faz de si mesmo a Fonte da Paz entre todos e com o Pai. Ele é o Santuário da Reconciliação concreta que o Pai buscava estabelecer com seu povo (2Cor 5,19). Santuário do encontro fraterno e filial. Peregrino com todos os que O seguem na vida de conversão a caminho da Reconciliação (Ef 2,11-18).
O seguimento a Cristo é peregrinação ao longo do caminho tortuoso da vida. O Cristo, Santuário da Trindade, é o Ponto do Encontro e Reconciliação entre Deus e seu Povo. Nele, por Ele e com Ele a peregrinação toma seu pleno sentido.
Um santuário cristão tem simplesmente a função de ser marco que sinaliza essa caminhada bíblica do existir humano.
POR ISSO, EM NOSSOS SANTUÁRIOS, através da valorização e do conhecimento da história bíblica:
- Reforçaremos a necessidade do peregrino de sair do seu pequeno mundo individual para descobrir a grandiosidade da obra e dos planos salvíficos de Javé;
- Incentivaremos que no caminhar da vida, o peregrino busque sempre comunicar-se com Deus para descobrir os seus desígnios e promessas, sempre em busca da libertação plena e total;
- Renovaremos a fé, celebrando a alegria do encontro com Deus, num lugar sagrado por natureza;
- Faremos memória da presença de Deus na história do povo, celebrando a vida e os fatos da vida, numa liturgia encarnada, profética e reconciliadora;
- Aproximaremos o peregrino de Jesus, o Bom Pastor, que acolhe as ovelhas e vive no meio delas.
O Cristo convoca e congrega em torno de si uma comunidade de discípulos. Forma-os na fé e na missão. Eles O seguem pelas veredas da Judéia e Galiléia. Ressuscitado, confirma-os no chamado e no envio ao mundo inteiro para anunciar o Reino do Pai a todos os povos, evangelizando-os e batizando-os em nome da Trindade Santa. O Espírito do Pentecostes lhes é dado para viverem a missão, na fortaleza da fé e da esperança, no amor fraterno e universal.
Feita Morada de Deus da Nova Aliança pelo Cristo e no Espírito, a Igreja é constituída de membros que antes não eram “povo”, mas agora são “Povo de Deus” pela misericórdia do Senhor (1Pd 2,5). O Batismo em nome da Trindade Santa é o rito da Nova Aliança pela qual o Pai assume como filhos os discípulos de Cristo no dom de seu Espírito. Na Eucaristia celebrada em memória do Senhor, Deus confirma a Aliança com seu povo peregrino. Como Templo do Espírito (1Cor 3, l6-17; 6,19) a Igreja é feita de “pedras vivas”, os seguidores do Senhor. É um Santuário edificado sobre o Senhor Jesus, sua Pedra Angular (Ef 2,19-22). É um Corpo cuja Cabeça é o Cristo (Ef 1,22-23) que, suprimindo a divisão, faz de todos o Homem Novo, estabelecendo a paz e reconciliação num só Corpo por meio da cruz (Ef 2,11-18).
Discípulos sempre e apóstolos peregrinos pelo mundo afora para o anúncio e testemunho da Palavra, os seguidores do Senhor formam a Igreja, germe e início do Reino de Deus na história (Lumen Gentium, n. 6). Igreja santa e pecadora, convocada sempre a se converter na reconciliação até que houver novos céus e nova terra. Nesse entretempo, a Igreja, rede de comunidades em busca do Reino consumado na eternidade (Lumen Gentium, n. 6), vive e anuncia a esperança por entre as tribulações que encontra ao longo de seu caminhar. Como “Igreja peregrina, leva consigo – nos seus sacramentos e nas suas instituições, que pertencem à idade presente – a figura desse mundo que passa e ela mesma vive entre as criaturas que gemem e sofrem como que dores de parto até o presente e aguardam a manifestação dos filhos de Deus (Cf. Rom 8,19-22)” (In Lumen Gentium n. 130).
Nessa condição, à Igreja é confiada a missão de preparar o Reino Messiânico, “eterno e universal, Reino da verdade e da vida, Reino da santidade e da graça, Reino da justiça, do amor e da paz” (Prefácio da Festa de Cristo Rei). A ela compete a responsabilidade de dar testemunho visível da missão que do Cristo recebeu.
A Igreja é essencialmente peregrina no mundo e na história. Nessa peregrinação, torna-se em Cristo, “como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Lumen Gentium, n.1). Sinal sacramental e instrumento da Reconciliação.
Esse é o caminhar que a Igreja é convocada a fazer particularmente no mundo de hoje tão necessitado de Reconciliação. Um mundo esquizofrênico, profundamente dividido e complicado, para quem a Palavra não aparece mais tão claramente escrita nem em tábuas de pedra e muito menos em corações de carne. A humanidade atual prefere manter-se instalada numa UR, caldéia virtual, a aventurar-se na caminhada que a leve a uma transformação radical de si mesma pela reconciliação. O compromisso que o mundo hoje parece viver é mais com a morte do que com a vida. As guerras, a violência, a droga, a fome, fruto da concentração dos bens terrenos, a subjugação de indivíduos e de povos inteiros, a discriminação, a corrupção endêmica, o desrespeito, sem fronteiras, ao habitat humano, levam à indignação que atravessa o mundo dos humanos e ao clamor pela vida digna que para todos Deus deseja. A antiga infidelidade prossegue hoje no desconhecimento ou descumprimento da Aliança por Cristo com seu povo.
Deus, porém, continua sendo o mesmo. Clemente e misericordioso. Pacífico e fiel em seu silêncio. No Cristo vive em agonia até o fim dos tempos, enquanto seu Povo for menos santo que pecador.
Essa é a certeza da fé que anima a Igreja peregrina em suas andanças pelo mundo e pela história. A esperança confirmada que a leva a ser fiel a seu Deus sempre Fiel. A missão solidária que a impele a ver, ouvir, sofrer e assumir os clamores que sobem do coração da humanidade atual, por uma reconciliação libertadora.
“Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez realidade nova. Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação... Sendo assim, em nome de Cristo exercemos a função de embaixadores e por nosso intermédio é Deus mesmo que vos exorta. Em nome de Cristo vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus” (2 Cor 5,17-21).
Esse compromisso da Igreja Peregrina dura até que Deus seja Tudo em todos (1 Cor 15, 28), como Santuário Eterno, Ponto Ômega do encontro reconciliado para todos os que peregrinam por esse mundo. Esse é o compromisso do missionário saletino que, pelas montanhas da vida, anda com Maria, Mãe da Salette, peregrinando junto com os pequenos e pobres filhos seus.
A peregrinação a um determinado Santuário na geografia religiosa, carrega consigo todo esse cabedal de fé e de esperança da Igreja Peregrina. Na Igreja, com a Igreja e pela Igreja, a peregrinação encontra seu significado na alegria, na gratidão e no louvor à luz da Palavra, sempre segundo o apelo à conversão e na busca do perdão reconciliador.
Em seu peregrinar pela história do mundo, anunciando e construindo o Reino, a Igreja leva consigo a Mãe Maria que Jesus lhe deu do alto da Cruz (Jo 19,25-27). Arca da Nova Aliança, Portadora da Palavra feita Carne em seu seio, Maria é o Santuário vivo da Trindade. Mãe de Cristo é Mãe da Igreja (Paulo VI, no encerramento do Concílio Vaticano II), Igreja, Corpo do Senhor Ressuscitado.
Mãe e membro eminente da Igreja, Maria, por sua fidelidade ao Senhor, é modelo por excelência no seguimento de Jesus. Aberta ao desígnio do Pai, por obra do Santo Espírito, acolhe o Filho Unigênito para entregá-lo pela salvação da humanidade. Missionária das maravilhas de Deus na história, leva a Isabel e sua família, numa atitude de solidariedade, a Boa Nova da chegada do Messias. Discípula do próprio Filho segue-O pelos caminhos da terra natal. Inserida no grupo dos aprendizes da Boa Nova, escuta com eles a Palavra de Cristo, conservando cuidadosamente tudo em seu coração (Lc 2,19). Entre eles está desde Caná da Galiléia, para relembrar-lhes hoje ainda a importância de fazer tudo o que o Cristo disser, como no-lo relembrou em Salette. No meio da multidão curiosa ou solidária, sobe ao Calvário ao lado do Filho torturado. Como Mãe das Dores assiste-O em sua fidelidade ao Pai até à morte na Cruz. Toma em seus braços o Corpo inerte de Jesus entregue pela reconciliação da humanidade. Na certeza de que seu Filho vive como Ressuscitado, aguarda, em meio aos apóstolos, o envio de seu Espírito. Fortalecida no Pentecostes, parte corajosamente com eles pelo mundo afora, na obediência missionária que o Cristo a todos solicita (Mc 16,15.20; Mt 28,18-20; Jo 20,19-23).
Desde então, Maria é a Mãe dos caminhantes, rumo ao Reino de Deus.
Em Salette, apresenta-se como “Mãe da Reconciliação” (Santo Anselmo). Reconciliação que os peregrinos buscam em Deus na peregrinação a Santuários, e no longo peregrinar da “passagem-páscoa” pela história em direção à Parusia.
“Ao aproximar-se de Maria, o peregrino deve sentir-se chamado a viver a ‘dimensão pascal’, que gradualmente transforma a sua vida através do acolhimento da Palavra, da celebração dos sacramentos e do empenho em favor dos irmãos. Do encontro comunitário e pessoal com Maria, ´Estrela da evangelização´, os peregrinos serão impelidos, como os Apóstolos, a anunciar com a palavra e o testemunho de vida, ´as maravilhas de Deus´(At 2,11)” (“O Santuário: memória, presença e profecia do Deus vivo”, o.c., n.18).
Com Maria, como Maria e por meio de Maria, o peregrinar humano encontra a plenitude de sentido na vida cristã. “Nesse caminho até o Reino definitivo, acompanha-nos a Virgem Santíssima, ‘Aurora Luminosa do Novo Milênio’. Caminhando conosco vai o Peregrino de Emaús, aquecendo nossos corações com suas palavras e deixando-se reconhecer ‘ao partir o Pão’ (Lc 24,35), tornando-nos testemunhas que correm junto aos irmãos, levando-lhes o grande anúncio: ‘Vimos o Senhor’”. (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil - 211)
POR ISSO, EM NOSSOS SANTUÁRIOS, a partir da mesma missão confiada aos discípulos e assumida pela Igreja hoje:
- Proclamaremos um Cristo encarnado e ressuscitado, vencedor da morte e construtor da vida;
- Enfatizaremos a importância dos compromissos batismais, em nome da Trindade, no amor aos irmãos e na necessidade de sermos criaturas novas;
- Daremos um especial valor à Doutrina da Igreja, fazendo-se sempre referência aos principais Documentos Eclesiais;
- Anunciaremos, com toda a Igreja, que somos comunidades de peregrinos em busca do Reino definitivo. Reino que se constrói no hoje e no agora, mas que se realizará plenamente na Parusia;
- Daremos importância litúrgica-celebrativa aos sacramentos nos Santuários-Paróquias, fazendo disso um momento evangelizador e reconciliador;
- Faremos eco ao clamor pela vida, evangelizando com renovado e esperançoso ardor, a partir das situações concretas vividas pelo povo;
- Ressaltaremos a fidelidade e a humildade, através de uma mariologia centrada no discipulado de Maria, Mãe dos Caminhantes.
O Santuário é um lugar de pastoral. Seu foco é o peregrino que chega a este espaço com as mais diversas motivações e com as mais diversas expectativas. Mesmo sabendo que aquele é um lugar religioso e de religião, nem sempre esta é a razão que o leva a estar neste local.
Especificamente para nós, latino-americanos, o Santuário, como obra da Igreja, está pastoralmente inserido no contexto e na preocupação da Igreja que se desafia a assumir com vigor a evangelização no presente e no futuro da América Latina. Proclamar hoje e amanhã o Evangelho aos povos latino-americanos, animados pela esperança e ao mesmo tempo marcados no mais profundo de seu ser pelo desprezo em sua dignidade, é não somente fraterno e enriquecedor, mas é também missão, dever, e compromisso sócio-eclesial. O grito de esperança e a angústia de nossos povos que chegam até o Santuário através das histórias pessoais dos peregrinos e pedem uma resposta profética, exige o compromisso da encarnação da Palavra de Deus em nossa vida e em nosso anúncio e é selado, de uma vez por todas, em Jesus Cristo.
“O Santuário pode tornar-se um lugar excelente de aprofundamento da fé, num espaço privilegiado e num tempo favorável, diverso do ordinário; pode oferecer ocasiões de nova evangelização; pode contribuir para promover a religiosidade popular ‘rica de valores’, levando-a a uma consciência de fé mais exata e amadurecida; pode facilitar o processo de inculturação.
Será, portanto, necessário desenvolver nos santuários ‘uma catequese apropriada’, que, enquanto tiver em consideração eventos que se celebram nos lugares visitados e a sua índole peculiar, não deverá esquecer a necessária hierarquia na exposição das verdades da fé, nem uma colocação no interior do itinerário litúrgico no qual a Igreja toda participa.
Neste serviço pastoral de evangelização e catequese, devem ser ressaltados os aspectos específicos conexos com a memória do santuário em que opera, com a mensagem particular a ele unida e com o ‘carisma’ que o Senhor lhe confiou e que a Igreja reconheceu e com o patrimônio muitas vezes riquíssimo das tradições e dos costumes que nele se estabeleceram”. (O Santuário: Memória, presença e profecia do Deus vivo – Pontifício Conselho para a pastoral dos migrantes e itinerantes – Paulinas – p. 28-29)
É de fundamental importância que nos perguntemos: quais são os critérios e as linhas de uma verdadeira e autêntica evangelização para a América Latina, em nossos Santuários? Quais deverão ser as opções pastorais fundamentais para que o Evangelho seja um acontecimento atual e presente, com toda a sua vitalidade e força original?
As respostas a estas duas questões nos tornarão sensíveis e abertos à vitalidade da Igreja, mas também ao conjunto dos problemas que concretamente afligem o nosso povo.
A vitalidade: no presente de nossa Igreja, percebe-se uma vitalidade nova: a sede de Deus e sua busca na oração e contemplação; o desenvolvimento das pequenas comunidades eclesiais; os novos ministérios; uma vida de fé mais profunda por parte de muitos jovens; a ação pastoral intensa dos religiosos e das religiosas, sobretudo a inserção comunitária cada vez maior nas zonas mais pobres e missionárias; o planejamento pastoral em seu processo de participação, em todos os níveis, das comunidades e pessoas interessadas, educando-as para uma metodologia de análise da realidade, para a reflexão sobre a realidade a partir do Evangelho e para os objetivos e os meios mais aptos e seu uso mais racional na ação pastoral; uma consciência mais aguda dos leigos quanto à sua identidade e missão eclesial.
Quanto aos problemas, nota-se: as injustiças de ontem e de hoje e a mudança sócio-cultural, na passagem para uma sociedade cada vez mais orientada e dirigida pela tecnologia sem escrúpulos e sem valores, com aspectos de progresso e verdade, mas em meio a profundos desequilíbrios, crescentes desigualdades e ameaças de maior domínio do homem pelo homem e do homem para com a natureza. O fenômeno negativo de uma crescente dominação, de uma crescente tecnocracia, não pode ser esquecido. Nossa preocupação em meio a essa problemática é tanto mais justificada quanto mais a sociedade e a cultura emergentes, que têm enormes possibilidades de libertação e aperfeiçoamento do homem, são caracterizadas por uma falta de formação mais profunda na fé; por situações lamentáveis de desrespeito à dignidade do ser humano e por um espírito secularista consumista tendente à negação do transcendente e à ruptura da comunhão filial com Deus e da comunhão fraterna entre as pessoas.
Qual então é a ação evangelizadora necessária nestes tempos? Qual é, concretamente, o caminho? Ousamos apontar alguns princípios:
É necessário levar a pessoa humana:
- à tomada de consciência de sua dignidade e da condição na qual se encontra;
- a um compromisso da renovação de sua vida e da sociedade segundo os valores do Evangelho, através da vivência da justiça, da solidariedade humana, da participação na comunhão eclesial e da pobreza evangélica, sem ódio nem rejeição de qualquer setor social, mesmo privilegiando os pobres, sem julgar e condenar nem apelar para a violência;
- à busca de uma libertação que vai além de todos os limites temporais e que tem sua plena realização na comunhão com Deus, o verdadeiro e único Absoluto" (Evangelii Nuntiandi, 19);
- a uma ação concreta a partir das dimensões do mandamento novo, que é uma proposta de amor profundamente reconciliador (Cf. Evangelii Nuntiandi, 38).
Para isso se requer uma Igreja que:
- testemunhe;
- proclame;
- celebre;
- atue, num processo dinâmico e permanente de evangelização, de tal forma que todo o cultural, o político, o econômico, o social, seja lido e discernido a partir do Evangelho.
Dentro desse marco pastoral, deve-se então perguntar qual é a ação mais urgente e quais os setores mais necessitados de evangelização? A ação mais urgente, prioritária, perece ser a de despertar agentes, que por sua vida e sua palavra, proclamem o Evangelho de Jesus Cristo como caminho de verdade e de vida. Daí a importância dos diversos ministérios com sua ação organicamente planejada. É assim que a pastoral vocacional é cada dia mais exigente. Numa Igreja missionária, ser missionário e ser apóstolo das nações é uma condição para o cristão de hoje.
Com relação aos setores mais necessitados de evangelização, diversas análises pastorais destacam: - A família e a juventude;
- Os camponeses e indígenas;
- Os migrantes e estrangeiros;
- Os operários, os desempregados e os aglomerados urbanos;
- As culturas afro-latino-americanas;
- As manifestações de massa e os meios de comunicação;
- A defesa da vida humana e da ecológica;
- As situações de conflitos e de guerras.
Há uma responsabilidade pastoral evidente nestes tempos e que o Santuário em sua ação pastoral pode contribuir muito.
É o aprofundamento da fé. Esta deve ser mais operativa e com uma mentalidade missionária. Trata-se de um empenho mais evangélico da Igreja, num diálogo permanente com as culturas vivas do continente latino-americano e com a nova civilização que se vai formando pelo fluxo do mundo técnico-científico.
POR ISSO, EM NOSSOS SANTUÁRIOS, a partir do planejamento pastoral e dos princípios de comunhão e participação:
- Buscaremos uma constante atualização dos métodos e das metodologias de ação pastorais;
- Ofereceremos, com criatividade e ao mesmo tempo com respeito litúrgico, a participação nos Sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia;
- Teremos uma preocupação especial à evangelização da família;
- Valorizaremos o aprofundamento da fé, incentivando a presença de cristãos conscientes, que defendam a vida, em todos os setores da sociedade: político, social, científico, intelectual, etc.
- Procuraremos desenvolver programas pastorais específicos para a juventude, para o resgate cultural, à defesa da paz e da ecologia;
- Faremos da pastoral da escuta e das bênçãos uma ocasião especial para a apresentação de uma catequese centralizada na pessoa e na proposta de Jesus Cristo.
Capítulo 2: O PROFETISMO RECONCILIADOR
“Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo, por meio de Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação. (...) Sendo assim exercemos a função de embaixadores em nome de Cristo, e é por meio de nós que o próprio Deus exorta vocês. Em nome de Cristo, suplicamos: reconciliem-se com Deus.” (2Cor 5,18-20)
O carisma da Reconciliação, na sua atualidade e urgência, aponta para uma dimensão profética clara e necessariamente evangelizadora, isto é, como Missionários da Reconciliação, somos chamados a olhar o mundo e a história humana com os olhos de Deus e a recuperar, neste momento da história em que vivemos, o grande projeto de amor e de aliança de Javé para com seu povo. Projeto que, como vimos, vem desde os tempos de Abraão, Isaac e Jacó e é selado de uma vez por todas em Jesus Cristo.
Os Missionários Saletinos resgatam deste compromisso as atitudes pastorais da denúncia dos “males contemporâneos” e do anúncio da esperança na conversão pessoal, na mudança de vida e atitudes e na transformação das estruturas injustas da sociedade. Por seu carisma, também acreditam que um “outro mundo e uma outra pessoa são possíveis”.
Nos Santuários Saletinos, o Profetismo Reconciliador indica o nosso horizonte, permeia o nosso serviço, modela nossas mediações e resgata nossa simbologia.
O Santuário é um espaço privilegiado para despertar no peregrino a consciência dos valores atuais da evangelização, por isso, ele é lugar do Povo de Deus. Povo este que, ao se colocar a caminho até este “lugar sagrado”, naturalmente, abre-se para acolher o anúncio da Boa Nova que ali é proclamada. O Santuário, por sua vez, deve fazer do peregrino um partícipe da construção do Reino de Deus. Por isso, entende-se o Santuário como espaço de diálogo universal com o peregrino, o pecador, o sem-Igreja, o turista, o curioso...
No horizonte dos Santuários Saletinos, ou seja, nos aspectos que queremos considerar como balizadores de nossa atuação, encontram-se dimensões fundamentais para a garantia da vida plena, tão “sonhada” por Deus e anunciada por Jesus até mesmo com sua própria vida.
Os horizontes se colocam assim, como desafios em nosso serviço pastoral e, longe de tê-los como uma caminhada paralela, eles encontram razão e justificativa nas orientações da Igreja e nas grandes necessidades atuais da humanidade.
POR ISSO, EM NOSSOS SANTUÁRIOS,
- Daremos ênfase especial à dimensão de universalidade da Igreja, destacando a experiência eclesial que se faz no Santuário como a mesma em dignidade e compromisso da que se faz em qualquer outra parte do mundo;
- Teremos sempre em conta as orientações da Igreja, definidas tanto pelas Encíclicas Papais, pelos documentos da Sé Romana e das Conferências dos Bispos e pelas normas pastorais da Igreja Local. A Doutrina Social da Igreja será também luz para toda a pregação que se realiza no Santuário;
- Promoveremos espaços e condições objetivas para que aconteça o diálogo inter-religioso e o ecumenismo, promovendo o respeito e a consideração religiosa em vista de propósitos comuns e num espírito de aliança para o bem da humanidade;
- Assumiremos a evangélica opção pelos pobres como referencial teológico e pastoral de reconciliação na sociedade, colocando o Santuário, suas atividades e sua estrutura, a serviço das causas do povo;
- Comprometeremos todas as forças em vista da promoção da vida e na defesa dos Direitos Humanos, que consistirão em pontos importantes a serem mencionados nas atividades religiosas do Santuário;
- Faremos da ecologia uma bandeira constante no Santuário, promovendo-se o respeito e a preservação da natureza, que aliada ao desenvolvimento de forma sustentável, fará que sempre se possa ter condições de vida na terra.
O ministro da religião é sempre um servidor, e é justamente para esta dimensão do serviço que nos colocamos totalmente à disposição do povo de Deus que procura no Santuário alento, esperança, confiança, ajuda e bênção.
Não há como ser servidor, sem se ter uma atitude de prontidão, abertura e disponibilidade. Se há uma característica que deve nos diferenciar no atendimento ao povo no Santuário, é justamente esta da disponibilidade. Quando o peregrino chegar ao nosso Santuário, já deve nos encontrar esperando por ele.
É nesta interação de objetivos, que Santuário, peregrino, sacerdote e agentes de pastoral tomam um só movimento em direção Àquele que nos fez todos iguais e, portanto, irmãos. Como diz a Carta aos Hebreus, capítulo 2, versículos 10 e 11: “De fato, Deus, por quem e para quem todas as coisas existem, queria conduzir para a glória um grande número de filhos... Pois, tanto aquele que santifica, como aqueles que são santificados, todos têm a mesma origem. Por isso, ele não se envergonha de chamá-los irmãos”. Nisso estão implicadas a aliança e a reconciliação salvadora.
Nossa disposição aos mais diversos serviços abre o nosso coração para a graça da irmandade e fortalece a nossa vocação missionária, motivando-nos para o compromisso e a gratuidade.
POR ISSO, EM NOSSOS SANTUÁRIOS,
- Valorizaremos, como instrumento pastoral de evangelização, as romarias e peregrinações, imprimindo especial atenção ao aspecto penitencial e reconciliador destas manifestações;
- Insistiremos que o peregrino tenha uma participação efetiva na sua Comunidade de origem, integrando-se nas pastorais e movimentos ali existentes;
- Ofereceremos programas especiais para a formação de agentes de pastoral, principalmente nas áreas da espiritualidade, liturgia, compromisso cristão e vivência familiar;
- Buscaremos dispor de leigos e sacerdotes preparados para assessorarem encontros de pastorais e movimentos que procuram melhor vivenciar seus objetivos e atividades específicas;
- Promoveremos eventos culturais e religiosos, proporcionando aos peregrinos e à Comunidade Local a oportunidade de aprofundarem seus conhecimentos e valorizarem aquilo que artisticamente se produz;
- Destacaremos a Pastoral Vocacional, dando-lhe evidência e aparência, em vista de fomentar em todo peregrino a vocação à vida, bem como a vocação do serviço à comunidade e da consagração a Deus;
- Constituiremos a Pastoral da Acolhida e a Pastoral da Escuta para dar ao peregrino uma especial atenção caracterizada pela fraternidade e pela solidariedade;
- Apoiaremos, de modo muito especial, a formação de Leigos e Leigas Saletinos, promovendo a participação dos mesmos em programas de espiritualidade saletina e de vivência da reconciliação.
A experiência saletina de trabalho em Santuários remonta, como vimos, o início de nossa existência enquanto Congregação Religiosa. Neste tempo e neste caminho já percorridos, muitas experiências foram acumuladas e hoje as temos como valores que queremos preservar.
Sabemos que qualquer obra pastoral precisa estar articulada com a vida do povo, com os desafios que a Igreja encontra em seu caminhar e com as buscas que a humanidade se coloca para serem respostas ao dia-a-dia das pessoas. Nestas buscas, a do sagrado é um imperativo, um desejo de identidade e um projeto de vida.
As mediações a que recorremos em nossos Santuários Saletinos visam justamente colocar, em nossas obras, esta atualidade do mundo e estes grandes movimentos da humanidade.
Não somos os únicos a assumirmos estes desafios, assim, trabalho conjunto e parceria são bases fundamentais para nossas ações.
POR ISSO, EM NOSSOS SANTUÁRIOS,
- Marcaremos presença nos organismos da Conferência dos Bispos do Brasil, que articulam e refletem a pastoral dos Santuários e, para se ter unidade e conjunto, cuidar-se-á para que o Santuário esteja inserido no conjunto das atividades pastorais da Igreja Local;
- Procuraremos fazer um trabalho muito bem articulado com a comunidade local e seus movimentos civis, com as lideranças políticas e com os poderes públicos, em vista de promover as potencialidades de cada local;
- Incrementaremos o turismo religioso como uma opção para divulgar mais a mensagem do Evangelho e a espiritualidade do fato e da mensagem da Salette e como uma fonte de receita capaz de contribuir nos investimentos necessários em cada Santuário;
- Priorizaremos os Projetos Provinciais, repercutindo toda e qualquer iniciativa que a Província possa vir a estabelecer como prioridade em sua caminhada;
- Ofereceremos a Revista Salette e a página saletina na Internet como um veículo de comunicação atual que pode continuar levando aos lares e às comunidades eclesiais a mensagem dos Missionários Saletinos;
- Contaremos com a Fundação Salette e outras entidades, em regime de parceria, para se concretizar os mais diversos programas, incluindo atividades culturais, artísticas e que se destinem a promover os objetivos da Fundação e do Santuário;
- Fortaleceremos a colaboração dos leigos no desenvolvimento do Santuário, integrando-os no planejamento e na execução de atividades e atendimentos;
- Estreitaremos os laços de mútua colaboração com as Irmãs de Nossa Senhora da Salette, para que se possa viver plena e conjuntamente o carisma que nos irmana;