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CONSELHOS DE JESUS

COMO AMAR E POR QUE AMAR OS INIMIGOS ?

VAMOS MEDITAR COMO PODEMOS FAZER ISTO A PARTIR DA REFLEXÃO DE TRECHOS DE UM SERMÃO PROFERIDO POR MARTIN LUTHER KING:

"Talvez nenhum ensinamento de Jesus seja, hoje, tão difícil de ser seguido como este mandamento do "amai os vossos inimigos". Há mesmo quem sinceramente julgue impossível colocá-lo em prática. Consideramos fácil amar quem nos ama, mas nunca aqueles que abertamente e insidiosamente procuram prejudicar-nos.

.......Insurreições sobre insurreições demonstram que o homem moderno caminha ao longo de uma estrada semeada de ódios, que fatalmente o conduzirão à destruição e à condenação. O mandamento para amarmos os nossos inimigos, longe de ser uma piedosa imposição de um sonhador utópico, é uma necessidade absoluta para podermos sobreviver. O amor pelos inimigos é a chave para a solução dos problemas do nosso mundo. Jesus não é um idealista sem sentido prático; é um realista prático.......Quando Jesus diz: "Amai os vossos inimigos", não ignora a dificuldade dessa imposição e conhece bem o significado de cada uma das suas palavras. A responsabilidade que nos cabe como cristãos é a de descobrir o significado desse mandamento e procurar apaixonadamente vivê-lo toda a nossa vida.

Agora sejamos práticos e formulemos a pergunta: Como devemos nós amar os nossos inimigos?

Temos, primeiro, de desenvolver e manter a capacidade de perdoar. Aquele que não perdoa, não pode amar.

........Também é preciso compreender que o ato do perdão deve partir sempre de quem foi insultado, da vítima gravemente injuriada, daquele que sofreu tortuosa injustiça ou ato de terrível opressão. É quem faz o mal que requer o perdão. Deve arrepender-se e, como o filho pródigo, retomar o caminho do regresso de coração ansioso pelo perdão.........nunca devemos dizer: "Perdôo-te, mas já não quero nada contigo". Perdão significa reconciliação, um regresso a uma posição anterior; sem isso, ninguém pode amar os seus inimigos. O grau da capacidade de perdoar determina o da capacidade de amar os inimigos.

Em segundo lugar, temos de reconhecer que a má ação de um nosso próximo, inimigo, – ou seja, aquilo que magoa, – nunca exprime a sua completa maneira de ser. É sempre possível descobrir um elemento de bondade no nosso inimigo.........Reconhecemos que o seu ódio foi criado pelo medo, orgulho, ignorância, preconceito ou mal-entendido, mas vemos também que, apesar disso tudo, a imagem de Deus se mantém inefavelmente gravada no seu ser. Amamos os nossos inimigos porque sabemos então que eles não são completamente maus, nem estão fora do alcance do amor redentor de Deus.

Em terceiro lugar, não devemos procurar derrotar ou humilhar o inimigo, mas antes granjear a sua amizade e a sua compreensão. Somos capazes, por vezes, de humilhar o nosso maior inimigo: há sempre, inevitavelmente, um momento de fraqueza em que podemos enterrar no seu flanco a lança vitoriosa, mas nunca deveremos fazê-lo. Todas as palavras ou gestos devem contribuir para um entendimento com o inimigo e para abrir os vastos reservatórios onde a boa vontade está retida pelas paredes impenetráveis do ódio.

......não amamos os homens porque gostamos deles, nem porque os seus caminhos nos atraem, nem mesmo porque possuem qualquer centelha divina: nós os amamos porque Deus os ama. Nessa medida, amamos a pessoa que pratica a má ação, embora detestemos a ação que ela praticou."

POR QUE AMAR OS INIMIGOS ?

"Por que devemos amar os nossos inimigos? A principal razão é perfeitamente óbvia: retribuir o ódio com o ódio multiplica o ódio e aumenta a escuridão de uma noite já sem estrelas. A escuridão não expulsa a escuridão, só a luz o pode fazer. O ódio não expulsa o ódio: só o amor o pode fazer. O ódio multiplica o ódio, a violência multiplica a violência e a dureza multiplica a dureza, numa espiral descendente que termina na destruição. Quando, pois, Jesus diz: "amai os vossos inimigos", é uma advertência profunda e decisiva que pronuncia. Não chegamos nós, em nosso mundo moderno, a uma encruzilhada onde nada mais resta do que amar os nossos inimigos? A cadeia de reação ao mal, – ódios provocando ódios, guerras gerando guerras – tem de acabar, sob pena de sermos todos precipitados no abismo sombrio do aniquilamento.

Outro motivo por que devemos amar os nossos inimigos são as cicatrizes que o ódio deixa nas almas e a deformação que provoca na nossa personalidade.

...........Mas há ainda outro aspecto que não podemos omitir. O ódio é também prejudicial para a pessoa que odeia. É como um cancro incurável que corrói a personalidade e lhe desfaz a unidade vital. O ódio destrói no homem o sentido dos valores e a sua objetividade. Faz com que ele considere bonito o que é feio ou feio o que é bonito, confunda o verdadeiro com o falso, ou vice-versa.

..........Um terceiro motivo por que devemos amar os nossos inimigos é que o amor é a única força capaz de transformar o inimigo em um amigo. Nunca nos livraremos de um inimigo opondo o ódio ao ódio – só o conseguiremos, libertando-nos da inimizade. O ódio, pela sua própria natureza, destrói e dilacera; e também pela sua própria natureza, o amor é criador e construtivo: a sua força redentora transforma tudo.

.........Apressemo-nos a dizer que não são esses os supremos motivos para amar os nossos inimigos. Há uma outra razão muito mais profunda para explicar por que somos intimados a fazê-lo e essa está claramente expressa nas palavras de Jesus: "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste".

Somos chamados para essa difícil incumbência com o fim de realizarmos um parentesco único com Deus. Somos, em potência, filhos de Deus e, através do amor, essa potencialidade torna-se realidade. Temos a obrigação de amar os nossos inimigos, porque somente amando-os podemos conhecer Deus e experimentar a beleza da Sua santidade.

.........Para salvar o nosso país e para salvar a humanidade, temos de seguir outro caminho. Isso não significa o abandono dos nossos retos esforços; devemos continuar a empregar toda a energia para libertarmos este país do pesadelo da injustiça social. Mas nesta emergência nunca podemos esquecer o nosso privilégio e a nossa obrigação de amar. Ao mesmo tempo em que detestamos a injustiça social, devemos amar os que praticam tais injustiças. Será a única forma de criar uma comunidade de amor."

Aos nossos mais implacáveis adversários, diremos: "Corresponderemos à vossa capacidade de nos fazer sofrer com a nossa capacidade de suportar o sofrimento. Iremos ao encontro da vossa força física com a nossa força do espírito. Fazei-nos o que quiserdes e continuaremos a amar-vos. O que não podemos, em boa consciência, é acatar as vossas leis injustas, pois tal como temos obrigação moral de cooperar com o bem, também temos a de não cooperar com o mal. Podeis prender-nos e amar-vos-emos ainda. Assaltais as nossas casas e ameaçais os nossos filhos, e continuaremos a amar-vos. Enviais os vossos embuçados perpetradores da violência para espancar a nossa comunidade quando chega a meia-noite, e, quase mortos, amar-vos-emos ainda.

Tendes, porém, a certeza de que acabareis por ser vencidos pela nossa capacidade de sofrimento. E quando um dia alcançarmos a vitória, ela não será só para nós; tanto apelaremos para a vossa consciência e para o vosso coração que vos conquistaremos também, e a nossa vitória será dupla vitória". O amor é a força mais perdurável do mundo. Este poder criador, tão belamente exemplificado na vida de nosso Senhor Jesus Cristo, é o instrumento mais poderoso e eficaz para a paz e a segurança da humanidade.

...........Jesus tem sempre razão. Os esqueletos das nações que o não quiseram ouvir enchem a História. Que neste século vinte, nós possamos escutar e seguir as suas palavras antes que seja tarde demais. Possamos nós também compreender que nunca seremos verdadeiros filhos do nosso Pai do céu sem que amemos os nossos inimigos e oremos por aqueles que nos perseguem."

PARA MEDITAR:
O AMOR AOS INIMIGOS

O amor aos inimigos acabou sendo uma prática esquecida, repudiada, manipulada e, por fim, mal interpretada. Alguns pensam que isto é algo absurdo, totalmente impraticável. Outros acham que se trata de agüentar o que os demais não querem fazer. Outros ainda, a qualificam como um meio de manipulação. Porém a verdade é esta: somente a vida de Jesus nos mostra como se pode amar efetivamente o inimigo.Este amor passa primeiro pela forja da verdade. Amar os nossos inimigos implica em dizer-lhes a verdade. Nosso amor não pode encobrir injustiças e desigualdades. Amar é andar na verdade.

É também um amor que não responde com agressão, pois é consciente de que a violência não é a medida com a qual Deus julga o mundo. Busca o caminho da alteridade, do diálogo, da tolerância. Somente quando reconheço o inimigo como pessoa, como ser humano, posso responder, na ótica da misericórdia divina, à crueldade alheia. Amar a quem nos odeia é a medida do verdadeiro amor, porque quem ama somente a quem retribui com os mesmos sentimentos, não ultrapassa a medida do amor egoísta. Beneficiar a quem nos causa dano, bendizer quem nos maldiz e ser generosos com os ambiciosos é um modo de proceder que põe a lógica do mundo de pernas para o alto. Isto porque esta ação não nasce da ignorância e da ingenuidade, mas da consciência de que o Homem Novo é superior à mesquinhez vigente.

As palavras de Jesus, portanto, se convertem numa contradição que pesa enormemente sobre o nosso coração. Ele não pede somente que sejamos bons ou que melhoremos nosso modo de ser; pede, sim, que nos abramos a Deus e que troquemos os farrapos do nosso egoísmo pela magnífica veste da generosidade.

O AMOR AOS INIMIGOS

Jesus apresenta as exigências do novo tipo de amor. O amor ao inimigo é o que melhor exprime e realiza a gratuidade do ato de amor, à semelhança do amor do Pai. É o amor que toma a iniciativa, sabe perdoar e transforma o ódio em atos concretos de amor que provome o bem dos outros. Jesus ensina que é no ato de amor criativo (Lc 6,31) que o homem se torna, de fato, a imagem de Deus: não se trata de reciprocidade medíocre e mesquinha, e sim de iniciativa gratuita que se preocupa em dar o primeiro passo para fazer o bem ao próximo.

Por que deve ser assim? Em Lc 6, 32-35 Jesus chama a atenção para uma atitude puramente natural: qualquer grupo ama e faz o bem àquele que o ama e lhe faz o bem. Contudo, a comunidade cristã deve ir além de uma simples benevolência recíproca! Pos é somente assim que se poderá viver como filhos daquele que ama gratuitamente (Lc 6,35), sem fazer acepção de pessoas.

AMAR COMO O PAI AMA

O ato de amor é o único caminho da salvação. Ele se realiza sempre no encotro com o próximo. Tal encontro deve ser modelado sobre a dimensão da própria misericórdia do Pai (Lc 6, 35-42):

- não julgar nem condenar, e sim perdoar;

- ser generoso e ir além do que é exigido;

- fazer o bem de maneira gratuita e abundante;

Esta nova medida do amor é como uma luz que abre os nossos olhos e permite julgar de maneira diferente. Ela reforma interiormente a nossa maneira hipócrita e perversa de julgar, apresentando-nos as exigências do respeito pelo outro e do apelo que este nos faz.

SER PERFEITO COMO O PAI

A nova justiça torna-se compreensível se partirmos do seu modelo e de sua medida que é o Pai. Mas, é preciso entender bem o significado de "perfeição". Estamos acostumados a ver a perfeição como um processo: aos poucos a pessoa vai crescendo até chegar a um ponto máximo. No entanto, esta noção provém muito mais do mundo grego que do mundo da Bíblia. Entre os semitas, e em toda a Escritura, a "perfeição" tem outra perspectiva.

A perfeição é muito mais "integridade" e "totalidade": em cada ato a pessoa se engaja e se compromete de maneira íntegra e total. Não pode haver falha e fingimento no ato que realizamos: ele exige a sinceridade completa que envolve o coração, a força vital e a própria realização exterior do ato. O melhor exemplo desta integridade está no mandamento de amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças (Mt 22,37). É por isso que o homem "perfeito" não pode ter um coração duplo e fingido (Tg 1, 4 e 8).

A "integridade" do Pai é, então, apresentada como modelo e medida da ação. Para realizar tal integridade é preciso o dom da graça. Só pode ser "íntegro" como o Pai que recebe a sua vida, e torna-se planta que ele plantou (Mt 15,13). Ele faz nascer um coração novo, capaz de discernir e de praticar a vontade real de Deus (Mt 15,19 ; 7,21).

Este dom transforma a pessoa toda, e também a prática que ela realiza. Transforma o coração, o olhar, o corpo, as mãos, os pés. Nasce um homem novo que se exprime na prática do olho, dos pés e das mãos. Há uma nova visão (fé), um novo caminhar (esperança), e uma nova prática do amor em favor do irmão (amor).

COMO REALIZAR A INTEGRIDADE

A pedagogia de Jesus começa por mostrar que a integridade se realiza no encontro com o "irmão". Os outros exemplos irão mostrar as exigências deste encontro, até chegar ao encontro de amor aos inimigos, no qual se poderá compreender o que é a gratuidade do amor, pelo qual os filhos se assemelham à maneira de agir do Pai.

1. O respeito à dignidade do "irmão". A Lei diante do próximo, exigia, no mínimo: não matarás! Jesus mostrará o que é a integridade, quando se respeita o irmão, em toda a sua dignidade (Mt 5, 21-23). Os exemplos de ofensa ao irmão, por mínima que seja, é o sinal do respeito total que se deve ter ao outro. E é interessante notar que a ofensa e o julgamento que ela merece vão em ordem inversa: a menor ofensa merece o julgamento mais rigoroso (Mt 5,22). Daí duas conclusões devem ser deduzidas: a superioridade do perdão e do amor ao irmão diante de uma prática puramente ritual; e a necessidade de superar um relacionamento jurídico por uma prática de perdão que se realiza no caminhar com o irmão (Mt 5, 23 e 25).

2. A integridade da pessoa que se encontra com o irmão: isto será exemplificado pela lei sobre o adultério (Mt 5, 27-32). O encontro com o outro exige a transformação e a integridade do coração, do olhar e das mãos para que a união do amor não seja mentirosa, defeituosa, mas que se "ame ao próximo como a si mesmo".

3. A integridade e responsabilidade (Mt 5, 33-37). O ensinamento sobre o juramento, e sobre a palavra clara e sem ambigüidade, mostra que a integridade do ato se realiza na responsabilidade, a qual é um ato livre na sua perfeição: na sua motivação e na sua finalidade. O juramento, por mais sagrado que seja, procura a motivação e uma verdade para o ato, numa realidade que está fora da pessoa (jurar em falso, jurar pela Cidade Santa, jurar pela própria cabeça). Este tipo de responsabilidade fica num regime de motivação exterior. É o regime da Antiga Aliança. Mas a Nova Aliança caracteriza-se por uma responsabilidade que nasce do coração, e sua única motivação é a presença da Palavra e do Espírito, que não são exteriores à pessoa que age, mas nela estão presentes; e, no centro de sua existência como luz e como força, são um princípio de motivação para a liberdade que faz surgir um ato responsável.

A integridade da palavra - "sim, sim, não, não" - mostra que a pessoa que age não tem "coração duplo"; mas su ato é respota ao amor do outro numa totalidade. Consiste em amar o outro sem falsidade e sem motivação excusa.

4. A gratuidade como fonte de ação (Mt 5, 38-42). Os exemplos que mostram que se deve superar a lei do talião ("olho por olho...."), a vingança (ato cego na prática da retribuição) e a maneira de tratar os inimigos, indicam que a integridade tem por raiz a gratuidade do ato de amor ao irmão. Trata-se de um ato com uma qualidade nova que muda o relacionamento com os outros, atém mesmo com os soldados da ocupação romana (Mt 5,41).

5. O ponto alto da integridade aparece, então, no ato de amor ao inimigo, Aqui, as pessoas são divinizadas, e tornam-se realmente filhos de Deus, e agem como ele age. O ato de amor ao inimigo mostra de maneira clara que a motivação e a finalidade do ato são o bem do outro. O mandamento de amor ao inimigo, como a parábola do bom-samaritano, mostra que é o próximo e em que consiste a novidade do amor. O próximo não é somente aquele que pertence à mesma raça, à mesma religião, à mesma nação. Mas, é todo aquele que se aproxima de nós, e na sua necessidade ou no seu simples apelo de comunhão, solicita o nosso amor, nosso serviço e nossa doação para o bem de que ele necessita ou procura.

Bibliografia

Gorgulho, Gilberto (Frei) e Anderson, Ana Flora – A justiça dos pobres: Mateus – São

Paulo: Edições Paulinas, 1981.

Gorgulho, Gilberto (Frei) e Anderson, Ana Flora – O Caminho da Paz: Lucas – São Paulo:

Edições Paulinas, 1980.

Valério, Paulo Ferreira – Misericordiosos com Deus – Revista Família Cristã (Fev/98)

 

 

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